Monday, October 06, 2008

Memórias de um mesário II

Já fui bem engajado na política, não faz muito tempo. Só que, definitivamente, perdi toda a fé no sistema eleitoral depois dessas eleições. Para ter o meu voto, é simples: não me pede.

Acordei cedo, às 7h. Para a minha surpresa, ao abrir a porta de casa, a rua, mesmo deserta, já estava tomada pelos "santinhos". O tapete de papel amassado e molhado certamente escorreu bueiro abaixo ao longo do dia.

Com a temática ambiental tão na moda e tão decisiva na tomada de decisão do consumidor e do eleitor, como os candidatos têm coragem de largar toneladas de "santinhos" na rua? Palhaçada.

Isso sem falar dos carros de som que causam pequenos terremotos nas vezes em que passam ao lado de casa. E depois do tremor, como se não bastasse, lá vem a tripa de fiéis buzinando.

Na urna

Nada foi pior do que ver a realidade das pessoas de um bairro popular na hora de "fazer parte da democracia". Diria que das cerca de 400 que votaram na minha seção, no mínimo 10% simplesmente não sabe em quem votou.

"Escuta-se o barulho que indica fim da votação:

(silêncio)

- Senhor(a), seu voto já terminou.
- Ué, mas como? Eu nem votei ainda.
- Mas o sinal indica que o(a) senhor(a) já votou.
- Como? Não votei ainda!"


"Entra uma mulher com aparência humilde, falando alto e contando da vida:

- Mas tá difícil escolher candidato, heim? Não sei em quem vou votar.
- A senhora pode consultar a lista ali na parede.
- Ah, já sei! Não precisa. Vou votar nesse aqui, ó. Me deram esse papel ali na entrada. Só não sei o prefeito. O Fogaça é dos ricos, né? Ao menos nesse do papel eu vou votar.

Ela vota e vai embora, feliz da vida"


E por aí vai.

No fim do dia, fiquei feliz em ver os santinhos na rua. Descobri que eles podem ser muito piores do que lixo no chão: podem representar um voto para o candidato.

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Thursday, July 24, 2008

Cansei de ter um blog atualizado


O novo álbum do antigo Cansei de Ser Sexy - agora só CSS - mostra que o estilo minimalista com boas composições ainda é a receita pra tocar nas rádios e ainda fazer sucesso entre a gurizada de franja pro lado.

Mas vendo além dos rifes com 3 notas, marcados com batidas entre o rock e o dance, o que se destaca são os pequenos barulhos. Aquele tipo de ruído que mesmo fora da música é capaz de balizar a melodia principal. Eu gostei.


i'd rather go inside and watch some tv
what about clouds
i think you should give it a try
but watching clouds is something you wanna do tonight
i hope you understand it's been a bad week
but it's not for me, no it's not for me

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Thursday, June 26, 2008

Mutações

Sempre fui curioso. Lembro de ter estragado vários brinquedos que eu gostava pela simples vontade de abrir pra ver como funcionava. Crescido, acho que não me enquadro no tipo "cara que arruma de tudo", mas ao menos um jeito em várias coisas eu consigo dar.

Só que essa característica tão masculina, a figura do marido que arruma as coisas em casa, está em extinção. Ou alguém aqui já abriu um ipod pra ver como funciona, ou apertou um parafuso dele que fez parar com o maldito bug de deixar as músicas fora de ordem? Claro que não.

As coisas, que antes eram simples e compreensíveis, agora são pequenas e digitais. Em alguns anos, esqueçam os desentupidores de patente: ou a privada nunca mais vai entupir, ou não haverá mais privada, ou haverá uma faculdade pra isso, ou então nem mundo mais vai existir.

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Thursday, June 12, 2008

Voyerismo

Há poucas semanas instalei um programa pra verificar a audiência do meu blog. Depois de uns quatro ou cinco posts com zero comentário, suspeitei que poderia estar escrevendo pra mim mesmo e meu ego ficou ferido. Depois de confortado pelas estatísticas, me diverti navegando americanamente pelas várias funções do contator. A mais divertida delas: o "recent visitors: by referrals" - ou seja, como as pessoas chegaram ao teu blog.

- "crescimento labrador até quanto tempo" - Imagino o cara, sentando em frente ao pc, desesperado que o cachorro que ele comprou não pára de crescer e não cabe mais no pátio. É um labrador, meu caro. Vai crescer.

- "dia certo para cruzamento do labrador" - Melhor consultar o calendário Inca, não o meu blog.

- "eu quero sabe quando a pessoa é lavrador" - Juro que não é piada do Jô.

- "coceira na sobrancelha" - Meu blog é melhor do que Minancora, remédio pra tudo.

- "guri labrador" - Alguém que lembrava vagamente do endereço e resolveu arriscar. Deu certo.

- "frases sobre geminianos" - Nunca achei que seria reconhecido como um poeta geminiano.

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Monday, June 02, 2008

Gêmeo de gêmeos


É pura besteira, perda de tempo. O fato é que soube a hora do meu nascimento e, em tempos de ócio improdutivo e de google, descobri qual o meu ascendente. Para a minha surpresa, é exatamente o mesmo do meu signo: gêmeos.

Eu sei que é coisa de mulherzinha e sem sentido. Só que para outra surpresa, este sou eu, segundo o astral-online.com:

Você está sempre perguntando e aprendendo, tem uma aparência jovem e viva não importando qual seja sua idade cronológica. Sua mente está sempre alerta, curiosa, flexível e inclinada às novas experiências. Seu entusiasmo é grande por coisas novas e aprende com extrema facilidade o que lhe é ensinado. Tem a cabeça sempre pensante e são tantas as idéias e planos, que se torna difícil acompanhá-los. Você necessita e tem avidez por variedade, mudanças, estímulo mental e uma vida social bastante ativa.


Pura coincidência...

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Sunday, May 25, 2008

Trident


Pense rápido e responda: qual é a cor do Trident hortelã? Verde ou azul? Não adianta colar aí de cima. A maioria das pessoas responde a primeira opção e perdem. É azul.

A questão não deve ter sido seriamente considerada pelos fabricantes do produto brasileiro. Na Europa, o azul é chamado de "original" e o verde de "spearmint".

A confusão começa na definição dos termos. Menta e hortelã são a mesma planta, do mesmo gênero, divididas em muitas espécies. Culpa dos potugueses, que não sabiam que a folha cheirosa e boa para chás já tinha o nome de "menta" e resolveram chamá-la de "hortelã".

Ferrou e fomos atrás. Agora, sofremos pra identificar os sabores dos chiclés.

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Monday, May 12, 2008

Poderia ter sido um Jéferson

Descobri isso esses dias, eu poderia ter sido um Jéferson. É impossível pensar como seria a minha vida agora, se o meu nome fosse outro. Será que teria feito as mesmas escolhas, teria os mesmos amigos, as mesmas mulheres?

Claro que sim.

Mas é curioso pensar que poderia haver uma espécie de predefinição das personalidades conforme o nome escolhido. Minha mãe sempre me disse que gostava de "Marcos" por passar a idéia de um homem forte - não faço idéia do que passaria "Jéferson".

É legal de considerar.

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Wednesday, May 07, 2008

Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana

Me dói toda a vez que escuto a expressão "pessoa humana", usado com frequência no direito. Tem como uma pessoa não ser humana? Uma pessoa pode ser animal, vegetal ou mineral? Pelo Michaelis, não.

pessoa
pes.so.a
sf (lat persona) 1 Criatura humana

Essa os meus leitores bacharéis tão convidados a responder.

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Tuesday, May 06, 2008

Passo a passo: como ter dinheiro infinito

Descobri um método de ter dinheiro infinito. É a salvação do mundo e dos nossos egos. Basta dividir R$ 1 em três partes. Como resultado, teremos R$ 0,3333333...

O número nunca terá fim. Tem um nome matemático pra isso, devo ter aprendido na quinta série, mas não importa. O fato é que o resultado será uma quantia infinita.

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Friday, May 02, 2008

Triste fim

Morreu jovem. Nunca foi de beber, as aventuras neste ramo da boêmia não foram mais do que cheiro do bafo dos outros. O pior de tudo é que nem se pode dizer que foi o vício que tirou a vida dele. Afogado, tomou todos os goles de cerveja que recusou durante a infância.

O fato foi que o celular escorregou da mão dela, picou na borda do copo, deu o último suspiro e afundou para a morte. Triste, mas verdade. Não ouvia nada lá embaixo, não falava nada. Mesmo retirado às pressas, não resistiu.


cell phone's dead
we're lost in a desert
one by one I'll knock you out
the eye of the sun is out of it's socket
one by one I'll knock you out

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Tuesday, April 29, 2008

Anotou a placa?

Para quem nasceu na década de 80 e nunca viu o primeiro Rocky, lançado em 1977 e vencendor do Oscar (!!!) deste ano, a expectativa é de sessão da tarde. O histórico de Sylvester Stallone como ator não é lá muito confiável; e quando se descobre que foi ele quem escreveu o roteiro para o "Garanhão Italiano", a casa cai antes mesmo de dar play.

Só que, para a minha surpresa, ao dar stop e eject, percebi que Rocky é um grande filme. O boxe, a história de amor e as piadas majadas, todos elementos previsíveis, apenas dão o contorno para o mais importante: o ambiental.

Balboa já tem quase 30, cria uma tartaruga e anda por aí com uma bolinha de borracha, brincando de picá-la no chão enquanto caminha pelo bairro. Ele tem um amigo, uma relação de amor e ódio, de papos estranhos e tão malucos que parecem ter saído de um filme de David Lynch.

Stallone não relaxou nem quando escreveu as piadas, como mostra a clássica tirada do motorista do gangster para quem Rocky trabalha nas horas vagas, que por algum motivo acha o lutador um grande loser:

- Você anotou a placa?
- Que placa?
- A placa do caminhão que atropelou a sua cara!


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Saturday, April 26, 2008

Acordado

- Cara, foda essa aula.
- Foda.
- Mal consigo ficar de olhos abertos, dei umas dormidas já. Vou fazer a manha que uso quando preciso dirigir e tô com sono: vou segurar o xixi. Assim, tu fica tão atucanado em não fazer nas calças que é impossível dormir.

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Thursday, April 24, 2008

Vida em modo arcade

Há certos momentos em que eu acredito que a vida seja em modo arcade, não em simulation, como deveria. Pra quem não passou a infância jogando NBA Live, Nascar e outros jogos, desambiguação:

Modo Arcade: Feito para jogar nos fliperamas, como o próprio nome sinaliza. Dá prioridade ao equilíbrio entre os jogadores, no lugar do realismo. Por exemplo: em um jogo de corrida, o segundo colocado sempre andará mais rápido do que o primeiro, para que haja chances de alcançá-lo, mesmo que o líder faça uma pilotagem perfeita.

Modo Simulation: Simulação absoluta da realidade. O computador nunca dará uma forcinha para quem estiver atrás, o que vale é a capacidade de cada um de aproveitar as circunstâncias e as chances de cada oportunidade. Por exemplo: num jogo de basquete, o acerto das bolas de três pontos serão calculados de acordo com a habilidade do jogador, posição de arremesso, etc. Nunca, neste caso, quem estiver atrás no placar terá vantagem.

Quero dizer, com isso tudo, que na maioria das vezes, quando as coisas parecem estar no auge, há uma força que tende a puxá-las para baixo. E quando se olha para trás, ou para o lado, não há player 2 que recebeu algum benefício com isso. Estanho. Enfim, o lance é comprar mais fichinhas e continuar jogando.

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Saturday, April 19, 2008

Traduções quase literais


A primeira alegria foi antes mesmo de sentar na cadeira do cinema. Na Natureza Selvagem era uma bela tradução para o título original: Into the Wild. O nome em português, extramente direto, mas pouco sonoro, foi uma escolha corajosa.

A segunda, foi que a trilha é inteira de Eddie Vedder. Onze faixas que ajudam a moldar o clima road movie, de aventura, saudade e solidão. E, por fim, o mais importante. Trata-se de um belo filme, leve e intenso como devem ser os raios de sol no Alasca, palco de boa parte da trama.

Baseado em fatos reais, gerou algumas discussões por aí. Dizem que de verdadeiro há apenas o fato de um jovem acampar no norte gelado. De resto, é apenas literatura, boa literatura. Alguém se realmente se importa?

When I walk beside her
I am the better man
When I look to leave her
I always stagger back again

There's a big
A big hard sun
Beating on the big people
In the big hard world

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Thursday, April 10, 2008

Pontos para Juno


Numa visão técnica, Juno se eqüilibra entre o hollywoodiano e o cinema europeu do acaso, dos personagens vivos e fora de qualquer modelo. Do outro lado, não conheci ninguém que tenha visto e dito que não gostou. Da minha sala, alguns saíram chorando, outros rindo, um casal abraçado, mas ninguém simplesmente foi pagar o tíquete do estacionamento, como se nada tivesse acontecido.

Em certo momento do filme, já esperava pela lição de moral que fatalmente, ou fetalmente, viria. Porém, para a minha surpresa, não houve. É difícil, aos vinte-poucos-anos e com o mínimo de personalidade, comprar idéias de que "sim, amores não duram pra sempre", ou "filhos são sagrados e você não deveria doá-los". É o tipo da coisa que não adianta ouvir de quem tem o dobro da sua idade, muito menos ver em final de filme.

Por isso, pontos pra Juno.

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Wednesday, April 02, 2008

4 meses, 3 semanas e 2 dias


Caiu o muro de Berlim e parece que levaram todas as pedras para os países do leste europeu, cordeiros dos vermelhos. Mas 4 meses, 3 semanas e 2 dias é político apenas nos detalhes, na confusão das ruas, nos carros velhos e na falta das marcas realmente boas de cigarros no mercado formal romeno.

Mas quem dá o soco no estômago é o tempo: cenas, sem cortes, de mais de 10 minutos. Verdadeiros massacres psicológicos, um drama que lá pelas tantas nem ao menos se sabe qual o propósito, o fim. De qualquer maneira, apesar das pancadas, vale a pena.

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Sunday, March 30, 2008

Aeroporto

Nos grandes centros urbanos há sempre um peão mexendo o cimento. Não existe limite para a expansão, para o que chamam de progresso – um horizonte turvo, curvo e distante para a maioria da população brasileira.

Só que tem um lugar em que todos somos confrontados com as nossas mais íntimas emoções, uma grande construção que venera a nossa saudade. O ritual começa antes, em casa, ao recolhermos nossos mais valiosos pertences, desde a sempre esquecível escova de dentes até o documento amassado.

Já no aeroporto, começa o show de humanidade. São pessoas chorando: elas vão embarcar pra longe. São pessoas rindo: acabaram de chegar. Outras com raiva: não conseguiram embarcar pra longe. O resto rindo fácil: finalmente vão para aquele lugar.

O que resta de humano nas pessoas se revela nos aeroportos. A viagem é o de menos.

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Friday, March 28, 2008

O tempo pode estar realmente passando mais rápido

É engraçado quando a física atinge níveis tão complexos que jornalista nenhum será capaz de fazer perguntas inteligentes o bastante para derrubar alguma nova certeza científica. Algumas coisas simplesmente são ditas, ficamos espantados e ponto.

Foi assim que tive contato com um texto sobre a tal Ressonância de Shumann, de Leonardo Boff, um gabaritado teólogo brasileiro. Segundo ele, a tal força, que gera um campo eletromagnético na Terra, funciona como um marca-passo para todas as formas de vida do planeta.

Recentes estudos indicaram que a freqüência gerada por esse fenômeno aumentou significativamente a partir da década de 80, passando de 7,83 para 13 hertz. Apesar de o relógio continuar marcando as mesmas 24 horas, a nossa percepção de tempo pode ter sido alterada por essa disfunção natural.

Que tal? Mesmo que não seja verdade, vale uma boa história pra contar.

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Tuesday, March 25, 2008

Guga por um dia

No rumo de Congonhas:

- Cê tá indo pra onde?
- Porto Alegre.
- É de lá?
- Sim, vim visitar uns amigos aqui.

Pausa e o taxista olha pra mim, pra frente, pra mim, pra frente e diz:

- Cê é mó parecido com o Guga, heim?
- É, tu não é a primeira pessoa a me dizer isso.

Ele ignora os motoboys tirando lascas do retrovisor e olha pra mim mais uma vez, dessa vez demoradamente.

- Peraí, cê é o Guga, não é?
- Sou parecido.
- Que isso, é sim! É alguma pegadinha isso? Cê é o Guga, eu conheço!
- Não sou, juro.

Depois de mais ou menos um minuto de tentativas, explicações e justificativas, entre elas a de que eu era gaúcho e o guga, catarinense, ele cedeu. E o papo seguiu o curso natural:

- É uma pena que ele tenha se machucado, né? Eu sei como é lesão nas costas, tenho duas hérnias. Só quem sente esse tipo de dor sabe o quanto machuca. Pra dirigir o taxi, então, é pavoroso.
- É, mas a dele foi no quadril. É complicado, durante o jogo precisa mexer muito o quadril pra fazer o movimento de rebater as bolas. Sem contar que alguns jogos duram mais de três horas, é um esforço muito grande.
- Como você sabe de tudo isso? Fala sério, cê é o Guga, né?

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Tuesday, March 18, 2008

Toques de personalidade

Não me considero um colecionador de toques, mas desenvolvi um nos últimos tempos que não faz o menor sentido: não consigo mais estacionar o carro sem deixá-lo colado no cordão da calçada. Mania de perfeição na hora da baliza? Mania. Não tem explicação.

É impossível acreditar em alguém sem toques, sem manias, sem frases clássicas, sem teorias infundadas, sem idéias absurdas e sem contravenções divertidas. E não falo de roer as unhas...

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Tuesday, March 11, 2008

Seven 2 - os seis novos pecados capitais


Demorou, mas ontem a igreja divulgou os seis novos pecados capitais, um marco na história da civilização ocidental. Dá pra ver que eles tão moderninhos e globalizados:

1) Experimentos com células-tronco
2) Uso de drogas
3) Poluição do ambiente
4) Agravamento da injustiça social
5) Riqueza excessiva
6) Geração de pobreza

Andei analisando caso a caso e acho que a pessoa mais demoníaca do século XXI é o cientista que fuma crack. O usuário seria condenado pelos artigos 1, 2, 3, 4 e 6. Se o cara for filhinho de papai, tiver feito faculdade particular, pior ainda, leva o 5 nas costas, sem chance de defesa.

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Sunday, March 09, 2008

Punta


Foi a brisa, para ser educado com o vento, que esculpiu Punta del Este. É uma cidade fantástica, em que uma bicicleta tem o mesmo valor que uma moto, que tem o mesmo uso de um carro. Nunca se ouviu uma buzina em Punta.

A brisa resfria a cabeça de todo mundo, a Patrícia gela as gargantas e os chouriços tornam a gordura tão levemente saborosa que acreditei quando o garçom me disse que era light. Abrigo dos poetas, as casas de chás se misturam aos cassinos, que separam as águas calmas do Rio da Prata com o Atlântico.

Pena que só entra quem tem muitos zeros na conta bancária

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Monday, March 03, 2008

Fábrica de guerras


"Certa vez, um garoto muito pobre ganhou um cavalo. Todos disseram pra ele: "que sorte".
Depois de três anos, enquanto cavalgava, caiu e quebrou a perna. Todos disseram: "que azar".
Logo em seguida, começou uma guerra. O garoto foi o único a não ser convocado, pois ainda estava engessado. Todos disseram: "que sorte"
"

Baseado em fatos reais, Jogos do Poder resume claramente um conflito que não é americano, nem soviético, muito menos afegão. A guerra é dos homens, que inventam falsas nações, armas, religiões, times de futebol, tudo para ter motivos para sangrar o outro.

Mais óbvia ainda é a política, que fabrica heróis que dão cavalos aos filhos, na inocência de vê-los dominar o mundo – o meio errado para o fim justo. A mão que dá tapinhas nas costas hoje, pode ser a que cavará a sua cova amanhã.

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Friday, February 29, 2008

O efeito Napster na TV


Demorou pra que algo do tipo se popularizasse, somente agora os primeiros programas de P2P voltados para a transmissão de imagens começam a vingar. Deslancharam, talvez, pelo alargamento de banda que todos vemos crescer a cada nova promoção da NET. Só agora, de fato, temos conexão rápida para ver TV pela internet.

O Sopcast é um programa que segue a velha lógica do Napster para universalizar o conteúdo. Você, que tem uma placa de vídeo em seu computador, pode compartilhar a transmissão de um determinado canal de TV com outros usuários do mundo inteiro. Na mão contrária, é possível assistir a programas e eventos de outros países, sejam eles ao vivo ou gravados.

Num futuro não muito distante, isso pode significar o fim dos "pay-per-view", por exemplo. Não cheguei a confirmar, mas um amigo me disse que os jogos da dupla Gre-Nal já estão sendo compartilhados através desse programa. É o fim do monopólio sobre transmissões de grandes eventos.

E para quem pensa que os gigantes da comunicação podem fazer algo para barrar a tecnologia, basta lembrar o caso Napster. Apesar do Lars Ulrich ter ficado nervosinho e liderado uma ofensiva contra o pioneiro dos P2P, hoje, outras dezenas de programas semelhantes de troca de arquivos são utilizados normalmente no mundo inteiro.

O conceito de compartilhamento na internet não pode ser controlado, tão grande é a quantidade de usuários e o fluxo de informação diária que é gerado. P2P é uma tendência natural da comunicação do futuro, cada vez mais descentralizada e ágil.

Os departamentos de marketing que pensem em novas maneiras de ganhar dinheiro, as óbvias não colam mais.

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Wednesday, February 27, 2008

Causos

- É estranho, cara. Tu tem que segurar as pontas. O que chega de bandido lá, com tiro, corte e tudo o que tu possa imaginar, é foda.
- Bah, só imagino.
- Aprendi os cógidos. Eles têm símbolos pra tudo. Os que tatuam "amor de mãe" no peito, ou um nome feminino dentro de um coração, são gays.
- Os caras inventam a própria linguagem...
- Mas é legal quando as pessoas curtem o teu trabalho. Têm umas mães que ficam super felizes quando tu sutura a cabeça dos filhos de um jeito bem feito.

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Sunday, February 24, 2008

A vida secreta das palavras

Há tempos que não escrevia sobre filmes, nenhum dos últimos havia me feito pensar nada além de qual seria a janta depois dos créditos subirem. Foi aí que "A vida secreta das palavras" me bagunçou um pouco, nunca tinha visto algo tão claro e barulhento sobre o silêncio.

É difícil realmente se dar conta do quanto a ausência de palavras é nobre. Por muitas vezes, mais profunda do que qualquer explicação, acredito no poder dela. Não é possível que os canais estejam sempre todos ocupados, com informações vindo de lá pra cá. Eu acredito na saturação.

Há um silêncio, nem um pouco constrangedor, que é a mais rica das linguagens. Quando torcidas de nariz, coceira na sobrancelha ou mordidas cutâneas dizem mais do que letras sobrepostas tediosamente, gramaticalmente sonoras e corretas. Eu acredito.

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Thursday, February 07, 2008

Contando ovelhas


Não estava dormindo. Durante uma viagem de ônibus insone, pensei em métodos de tornar os acidentes menos letais. Dentre os muitos sistemas anti-impacto que me veio à mente, um merece atenção. É o ejetor de assentos.

Todos os veículos teriam um banco ejetor, semelhante aos jatos, que seria acionado em caso de batida, utilizando o mesmo sensor de choque dos air-bags. Só que o ângulo de lançamento teria de ser diferente dos aviões, para frente e para cima, desenhando uma diagonal, para suavizar o impacto.

O único problema seriam os túneis. Neste caso, seria melhor encarar uma colisão frontal do que rachar a cabeça no teto. Outra questão que ainda não sei como resolver é como proceder no caso de uma batida entre dois carros que usam o mesmo sistema. Se os dois motoristas forem arremessados para frente, ambos se chocarão no ar. Dá na mesma.

Já que o helicóptero do Leonardo Da Vinci nunca voou, me animo em deixar a descoberta pra depois. Aceito idéias gratuitas e criativas para desenvolver o projeto.

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Tuesday, January 29, 2008

Nem tanto


Já ouvi muita gente gabaritada em aquecimento global citar como exemplo a praia de Garopaba como amostra do que está acontecendo com o planeta. Ali, apontam os falsos especialistas, a água do mar já subiu tanto que praticamente acabou com a faixa de areia. As ondas quebram na altura dos postes de luz, na beirada das casas dos pescadores.

Ora, o oceano é um só no mundo. Uma gota de água em Atlântida Sul vai aumentar o nível das praias do Caribe. O argumento de que Garopaba é um exemplo de catástrofe anunciada é totalmente inválido e infundado.

A explicação para o fenômeno das águas que sobem localizadamente pode estar no viés geológico. A mudança do solo da região, aí sim, por influência, ou não, do homem, foi que provocou a mudança de cenário. Não foi o mar que subiu, foi a areia embaixo do mar que desceu.

Em pouco tempo, essas afirmações poderão servir de base para os céticos, será um grande movimento de desacreditação do fenômeno do aquecimento global. Esse tipo de afirmação é a arma que faltava para quem acha que a natureza sempre dá um jeitinho nas nossas cagadas (literalmente).

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Monday, January 14, 2008

Arrogância e Utopia

Entrevista - Genebaldo Freire

Doutor em Ecologia, analista ambiental do Ibama e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), Genebaldo Freire esteve no Ceará ministrando a palestra Desenvolvimento Sustentável - Arrogância e Utopia. Nesta entrevista, ele fala sobre mitos e fatos do futuro do ser humano na Terra:


Diário do Nordeste: Desenvolvimento Sustentável - Arrogância e Utopia. O que quer dizer?

Genebaldo Freire: Significa que, mantidos o cinismo das formas de produção, crescimento populacional, aumento do consumo e políticas totalmente afastadas da relação ser humano-ambiente, não há a menor possibilidade de desenvolvimento sustentável, nem teoricamente. Esse termo é extremamente arrogante. O que precisamos é de ´Desenvolvimento de Sociedades Sustentáveis´. Essa história de ´salvar o planeta´ é bobagem. Primeiro porque o planeta não está em risco, segundo porque não teríamos condições de salvá-lo, nem ele precisa disso. O planeta sempre esquentou, passou por períodos de glaciação e vai continuar sua escalada. Daqui a 7,5 bilhões de anos, o sol apaga, congela. Ele tem seus próprios mecanismos de regulação.

DN: Então a Terra não está em risco como se propaga?

GF: O que está em risco é a sociedade humana, conceitos de bem-estar, democracia, respeito ao próximo, organização social. Isso está ameaçado porque tivemos uma educação que nos remete a sermos consumidores úteis e não a pensarmos a relação com o ambiente. Somente nos últimos tempos, com o aquecimento global, percebemos a necessidade de mudanças radicais em nosso estilo de vida.

DN: E o aquecimento global?

GF: A Universidade de Columbia publicou, em setembro, o índice de vulnerabilidade de 100 países. Lugares que estão mais em cima, como Finlândia, Islândia, Noruega e Dinamarca, estão menos vulneráveis. Mas o Japão, que é uma ilha, está em sexto lugar na lista. Por quê? Porque há mais de 15 anos eles investem em adaptações para se ajustar ao aquecimento global. A Holanda, que tem 57% de suas terras abaixo do nível do mar, está em 14º lugar. Países como Estados Unidos, Alemanha e França estão investindo nisso porque sabem o que pode acontecer nos próximos 10, 20, 50 e 100 anos. O Brasil está em 56º lugar em vulnerabilidade. Isso mostra que não temos alta governança.

DN: Alta governança?

GF: Isso mesmo. Quer dizer que, apesar de sermos o oitavo país mais rico do mundo, temos baixa capacidade de respostas. Isso acontece por diversos motivos, mas, principalmente, pela burocracia e corrupção. Temos tecnologia, cientistas brilhantes e o mapa de vulnerabilidade já está feito. Mas falta a parte seguinte, que são os planos de adaptação e mitigação. Estamos parados em relação a isso. Sabemos que terras boas vão virar semi-áridas e, depois, áridas. Sabemos que as regiões que mais vão sofrer no Brasil são Nordeste, Sul e Sudeste, pelas mudanças profundas no regime de águas. Fortaleza, por ser litoral e estar no Nordeste, está dentro da área de altíssima vulnerabilidade. Disponibilidade de água, perda de safras e migração precisam ser pensadas. Até 2050, quem está hoje com 10 anos de idade, vai passar sufoco, caso não haja planejamento agora. Não há necessidade de pânico, mas é preciso competência, envolvimento e seriedade.

DN: Então o nosso fim pode ser adiado?

GF: A destruição é inevitável. O que é evitável é apressar o processo para ficar mais tempo aqui e evoluir. Daqui a três bilhões de anos a Terra não vai mais reunir condições para que nossa espécie continue, pelo menos como é hoje. A evolução biológica não acompanha a evolução cultural. A cultural é muito mais rápida. Biologicamente levamos milhares e milhares de anos para incorporar adaptações, digamos, casuais, de uma mudança na composição química da atmosfera. E, se não tivermos mais 21% de oxigênio, mas 22%? Todos os seres humanos morrerão. Não há como se ajustar caso a mudança seja rápida. Biologicamente não teremos resposta. O grande fascínio da vida são os mistérios que nos cercam, a contemplação, a reflexão sobre esses mistérios. Infelizmente as políticas não têm tratam disso.

DN: A conscientização pode minimizar os impactos?

GF: Não acredito em grandes catástrofes ecológicas, mas muitas populações irão migrar passando fome, aliás, já está acontecendo. São 36 nações em guerra por causa de água, com recursos minados pela corrupção. O grande papel do movimento ecológico foi trazer a análise sistêmica, ver o todo, para que não se perca no tempo apenas ganhando dinheiro e comprando coisas. A indústria do entretenimento, por exemplo, mantém a pessoa presa diante da televisão, sem tempo para meditar, refletir ou buscar vida plena. As pessoas ficaram ocupadas em ganhar dinheiro e esse tipo de valor corrompeu demais, gerou valores perigosos. Ninguém poderia imaginar, há 20 anos, que alguém tivesse coragem de falsificar medicamentos para pessoas com câncer ou colocar soda cáustica em leite servido para idosos e crianças. Comportamentos dessa natureza são sintomas de afastamento da missão maior. Hoje, o grande desafio da educação é trabalhar valores, ética. Quando eu vejo educação ambiental centrada em coleta seletiva, despoluição, hortas, digo que é pouco. Temos que fazer isso e muito mais. Isso representa apenas 5% do problema.

DN: É como ampliar a idéia de causa e efeito?

GF: Exato. É preciso saber que são necessárias mudanças mais profundas que simplesmente proteção da camada de ozônio, economia de água ou energia elétrica. Claro que são fatores importantes, complementam elementos de gestão ambiental. Mas, o que se exige hoje, está muito além de separar e reciclar lixo. É preciso repensar o consumo. Há necessidade de recusar certas coisas. E isso não se faz de uma hora para outra. Estamos em processo evolucionário, no topo de mudanças e transformações que vão mexer com estilos de vida. As empresas, no início, incorporaram a questão ambiental forçadamente. Agora fazem porque dá lucro, quando elas economizam matéria-prima, quando melhoram o marketing ambiental. É preciso ter estados, empresas, pessoas que incorporem a necessidade de mudar a relação com o ambiente. Isso demora algumas décadas, mas acredito que estamos em bom caminho.

DN: Para onde caminha a humanidade?

GF: Vivemos um período fascinante. Talvez o mais exuberante da escalada humana na Terra. Porque estamos mudando paradigmas e o aquecimento global veio facilitar isso. Ganhamos esqueleto ósseo e corpo físico recheado de água e proteínas para vivermos a experiência humana por determinado período de tempo. Nossa experiência é para a evolução. Nosso papel é produzir transformações. Todo o universo está assim. Mas nosso equipamento sensorial é bruscamente atrapalhado pela religião e educação. Tem um pensador inglês que diz que o ser humano nasce ignorante, mas são necessários vários anos de educação para que ele se torne estúpido. A educação como está virou comércio e com baixíssimo potencial de preparar pessoas tolerantes, compreensivas, éticas, perceptivas, que tenham clareza do que vieram fazer aqui. Tudo embevecido pelo consumismo. A grande preocupação é reunir dinheiro para comprar coisas e pagar impostos. Depois envelhecem, entram em depressão e morrem. A vida é mais que isso e o tempo curto para vivermos essa experiência. É preciso aproveitar intensamente cada dia, minuto, segundo; ser consciente do próprio papel, dizer o que pensa, discordar elegantemente e contribuir.

DN: O homem ainda tem a ilusão de ser o centro do Universo?

GF: Temos um milhão de anos sobre a terra. Os gatos têm 35 milhões de anos; as lagartixas, 50 milhões; as samambaias, 400 milhões de anos. Imaginar que o planeta foi preparado para receber a espécie humana é arrogância e falta de percepção do que significa a vida na Terra. Somos apenas elo integrante da teia da vida que não deveria ser chamado planeta Terra, mas sim, planeta ´Vida´. Tudo aqui foi costurado, programado, concebido para abrigar vida. A vida no planeta é tão exuberante que, se um prédio ficar sem manutenção alguns anos, a vegetação toma conta. Você encontra uma flor emergindo no meio de um asfalto a 50º C. A Terra foi concebida para abrigar vida. Nós, seres humanos, somos, apenas, mais uma espécie. Fomos guinados a sermos a coisa mais importante do planeta por meio das religiões, erro que hoje elas próprias tentam consertar.

DN: Erros que levarão tempo para serem reajustados?

GF: O surgimento da nossa espécie, a partir do momento em que nos organizamos em sistemas urbanos, tornou nossa relação complexa. Agredimos muito, nos trancamos em paredes e achamos que, por meio de tecnologias, resolvemos tudo. É preciso perceber como as coisas funcionam. Não estamos isolados. Nosso corpo é formado por milhares de sistemas dentro de sistemas. Átomos que formam moléculas, células e tecidos; que formam o indivíduo humano, sociedades, populações, biota, ecossistema global, sistema solar, galáxia e cosmos. E, se regredir abaixo do átomo, tem os níveis de energia. Somos macro e micro ao mesmo tempo. Tanto religião quanto educação, enfiaram em nossas cabeças que somos indivíduos. Não! Somos elementos de um todo. Ao mesmo tempo pequenininhos e gigantescos. Não somos os donos da história. Temos, também, nossa importância cósmica. Não falamos mais em educação ambiental para pensar globalmente e agir localmente. É muito estreito. Tudo influencia o todo. Precisamos pensar cosmicamente e agir global e localmente.

(Fonte: Diário do Nordeste - 26/11/ 2007)

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Tuesday, November 13, 2007

Claro que já não é mais assim


Quem lembra da Torre da Claro iluminada, num festival de cores diferentes, combinações e intensidades? Foi no verão de 2001, todo o dia dava uma olhadinha pra ela, achava bem bacana aquele jogo de cores. Afinal, eram os anos 2000 prometendo coisas fantásticas.

Mas depois veio o racionamento de energia e lembro de ter lido que iam acabar com a farra de luzes multicoloridas. Tudo bem, pensei. E agora? Nunca mais ligaram. Será que venderam as luzes todas? Será que a Tim comeu a fatia com o pedaço de morango da Claro e a grana encurtou?

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Saturday, November 10, 2007

Renan Calheiros por um dia

Dia chuvoso, transito porto-alegremente complicado. Tinha de escolher entre deixar o carro em um lugar escuro, vazio, possível abrigo de qualquer coisa, e a tentativa já desesperada naquela altura de usar o estacionamento para professores. Como o próprio nome diz, exclusivo para os mestres.

Fiz cara de turista. Apontei o carro para o portão e perguntei ao vigia se era possível deixar o carro ali dentro, pois estava atrasado para o congresso.

- Impossível - ele disse.
- Mas é meio complicado deixar o carro lá fora, né?
- É bem ruim.
- Putz.
- Aqui é só pra professor.
- Não dá pra quebrar o galho?
(...)
- Faz o seguinte, estaciona ali no canto e na volta deixa um cafezinho aí, tá?
- Valeu.

De momento, comemorei: meu carro estava seguro. Depois, as questões começaram a pipocar na minha cabeça. Será que foi certo? Aquele vigia deve ganhar uma grana por dia, vendendo um espaço que não lhe pertence e ao mesmo tempo contradizendo as normas do seu trabalho.

E eu? Eu financiei o desvio ético daquele pobre vigia. Será que quem carrega dinheiro na cueca também é culpado ou só o Renan Calheiros?

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Friday, September 28, 2007

A impressão é a que fica

Já que ando negligenciando meu blog, dessa vez, o itálico é meu. Abro espaço no meu canto pra publicar um ótimo texto de uma grande amiga, ou um grande texto de uma ótima amiga. Com vocês:

Chegou em casa, tirou da bolsa o disco que estava dentro de uma capa preta de papel, meio rasgada no cantinho. Leu o que dizia na parte superior do CD: Foo Fighters – Echoes, Silence, Patience and Grace. Respirou fundo e pensou: ‘vamos lá, prepare o som, os ouvidos e as emoções que agora vem coisa nova pra se comentar’. Sabia que não ia dar certo ouvir aquele novo álbum, todo cheio de músicas de cair o queixo, sozinha em um quarto. Era melhor esperar. Desligou o som e guardou o disco de volta na bolsa.

O fanatismo era grande, mas a falta de coragem de explorar aquela novidade era maior ainda. Na noite seguinte, o mesmo ritual passou pela sua cabeça. E o mesmo resultado lhe foi dado. Nada de ouvir aquele disco ainda.

Ok. Três dias já era tempo demais para não ter colocado nem uma faixa pra rodar. Já estava virando drama aquilo tudo. Resolveu ouvir no carro, dirigindo pela noite vazia e chuvosa da cidade. Nada melhor do que se ouvir o novo disco da banda preferida sozinha em um carro, dirigindo sem pensar em nada. Nada além das letras e das melodias que recheavam seu cérebro naquele momento.

Primeira música: bombástica. Já tinha visto o clipe de “The Pretender”, divulgado pelo site oficial. E mesmo assim pensou: foda! Não é à toa que virou o single. Pronto, já foi. As próximas faixas vão acalmar um pouco os ânimos, o pior já passou. Ou não. “Let it Die” lhe trouxe muitas lembranças do The Colour and The Shape, com um início bem estilo balada e uma invasão de gritos e riffs de guitarra que arrepiam até a alma. Foi aí que descobriu que o álbum foi produzido por Gil Norton, o mesmo cara que trabalhou no segundo CD da banda. Aquele mesmo citado na lembrança acima. Mais uma vez, pensou: fo-da! E falando em arrepiar até a alma, lá vem a terceira música: Erase/Replace. Bem que a concorrência tinha dito: dezesseis guitarras, uma orquestra e um órgão. Realmente, Dave mandou bem mais uma vez. Finalmente sua respiração já não era mais curta e afobada, parecia estar tudo voltando ao normal. Ledo engano. “Long Road to Ruin” é, definitivamente, uma das mais impactantes músicas do álbum. A vontade de sair daquele carro ouvindo a música no máximo volume e cantando junto era tão grande quanto o talento dos caras. Ufa, acabou. Um descanso merecido, depois de tamanha empolgação. Por um momento pensou estar em um daqueles filmes de terror em que não param de acontecer coisas das quais todos sabem que são provocadas com o único intuito de assustar e chocar a platéia que está no cinema. E mesmo assim, por mais previsível que seja, todo mundo acaba se surpreendendo. Era um choque atrás do outro. Não que o disco seja previsível, muito pelo contrário. A expectativa era grande, mas não achou que fosse a ponto de encher os olhos de lágrima cada vez que aquela tal empolgação chegava. E tudo isso levava sua cabeça para longe, pensando no tempo que se arrastaria para ver todas aquelas músicas serem tocadas diante de seus olhos, ao vivo e a cores. Depois de tantos pensamentos soltos que ligam as músicas à vida real, relaxa a cabeça no encosto do banco esperando o sinal abrir. Enquanto isso “Come Alive” e “Stranger Things Have Happened” já dominam todo o espaço que ainda existia para refletir sobre determinados assuntos que lhe vinham à mente na medida em que o disco rodava. “Cheer Up Boys (Your Make Up is Running)” vem logo de cara eliminando qualquer vontade de ficar em casa, sentado em um sofá lendo um jornal. Ou até vendo um DVD de algum show memorável. Prova de que a música é surpreendentemente fantástica. Logo no refrão, fecha os olhos e é como se estivesse vendo todas as pessoas que gosta reunidas em um só lugar, fazendo a maior festa de todos os tempos e rindo como nunca. Vontade de ligar para cada um e mostrar o som que está ouvindo. Eles merecem.

Logo que escutou o primeiro acorde de “Summers End” já se imaginou dirigindo em uma estrada deserta, sem sinalização de trânsito, sem prédios e sem pessoas ao redor. Simplesmente a estrada e aquela música. Bem estilo country mesmo. Nada mais característico para o som que invadia todo aquele momento de pensamentos longos e de vontades quase incontroláveis de se fazer o que não era possível e muito menos viável.

Certo, agora que já viajou bastante e a música já chegou ao fim, voltemos à realidade. Impossível! A instrumental “The Ballad of the Beaconsfield Miners” a leva de volta a toda aquela estrada deserta. Dessa vez com leves nuvens de poeira levantando por onde as rodas passam e que podem ser vistas pelo espelho retrovisor do carro. Lembra que em uma de suas pesquisas sobre o lançamento tão esperado, encontrou uma curiosidade que foi, de fato, marcante: a música foi feita por Dave Grohl em homenagem a dois mineiros que ficaram soterrados por dias na cidade de Beaconsfield e pediram apenas iPods com músicas do Foo Fighters para esperarem, de alguma forma, tranqüilos pelo resgate.

Sente uma melodia diferente lhe dando cutucões na mente, que a leva de volta às avenidas vazias na madrugada que traz de brinde uma leve chuva com ar de inverno. É a “Statues” se manifestando dentro daquele ambiente pequeno, com apenas um dos cinco lugares vagos, e os vidros todos fechados, já meio embaçados com o calor do momento e da idéia de não parar de dirigir até que o disco acabe. Percebe que a letra é incrível, como pode tanto talento estar acumulado em um só corpo? Pensa que Dave Grohl chega a ser irritantemente bom no que faz, sem exceção alguma. E é no momento em que o refrão é cantado com um tom de voz leve e tocante que tal pensamento vem à tona. Quando achava que toda essa reflexão (que poderia até se tornar um estudo de caso) se encerraria apenas por causa de “Statues”, lá vem “But Honestly” para quebrar toda e qualquer linha de raciocínio lógico. Mais uma bomba para engolir. A única coisa que consegue pensar é ‘Céus! É tudo muito bom!’. Ainda não encontrou uma faixa que possa ser criticada (pelo lado ruim) de verdade. Tudo bem, pensa, é fã de carteirinha da banda, mas isso não a impede de não gostar de uma música ou outra de alguns discos dos caras. Já se vê procurando características que a incomodam nas músicas e ter algo de negativo para falar sobre o álbum. Não dá. Quando a música 12 começa a rodar, sente vontade de parar o carro, descer e ficar ouvindo debaixo da chuva, lavando a alma. “Home” foi escrita por Dave em dez minutos, foi aquela cuspida clássica que os rockstars dão em um papel e acertam o tiro de primeira. Foram quase cinco minutos de aperto no peito, vontade de abraçar quem mais se gosta no momento e de lamentações: ainda vai levar um tempo para ver um show desses caras. Paciência. Contenta-se com as músicas lindas e a Internet que salva a todos. Por um instante acha que o disco terminou. Seria a hora de voltar à vida real? Ainda não, o cd player lhe mostra que tem uma faixa bônus prontinha para ser apreciada. A última, ele promete. É quando “Once and For All” entra em ação e faz um ótimo encerramento de álbum. Sente palpitar aquele gostinho de ‘quero mais’. Agora não rola, quem sabe na próxima viagem. Abre o portão da garagem, guarda o carro, larga o CD em cima da cama e vai tomar uma cerveja. Merecida. Cada gole a traz de volta à realidade que não quer estar. Echoes, Silence, Patience and Grace a leva para um universo paralelo, talvez em outra dimensão. E é lá que ela gostaria de permanecer.

Por Renata Crawshaw

Sunday, September 23, 2007

ReacTable

Algumas coisas me fazem lembrar que estamos nos anos 2000. Nesse findi, não tive dúvidas de que os anos 00 foram produtivos. Mesmo que os carros ainda não voem, já existe o ReacTable, um instrumento visual e experimental que só vendo para entender:





Espero que nos anos 10 eu possa comprar um.

Tuesday, September 18, 2007

Cheiro de Bienal

Hoje senti cheiro de Bienal na minha casa. Um pedaço de madeira na cozinha me fez lembrar o odor das obras no ano passado, foi o que mais me marcou, na época. O visual é consumido na hora, não consigo recordar de nada que tenha ficado gravado.

É curioso, é cheiro de Bienal.

Monday, September 10, 2007

Porta afora

E tudo está no mesmo lugar há anos. São coisas que ela faz questão de cuidar, regar, admirar e pintar. Para a idade, ainda não descobriu remédio. Para a saudade, os fios resolvem, se batem, unem. Para si mesma, o pé gasto e grosso na estrada esburacada é o bastante. São passos lentos, curtos, decididos.

Um dia, ela parou e pensou que deveriam todas irem para um lugar diferente. Não precisava ser melhor, era a mudança que fazia o sabor. Por hora, as outras não toparam. Ela não esperou, pegou uma dúzia de estátuas de corujas – talimãs adquiridos nessa mesma vida – e colocou numa sacola. Empacotou cuidadosamente o caderno de receitas, a agenda telefônica e uma foto da família.

Saiu de casa, o porto era logo ali.

Chegou, calçou pantufas e sentou em uma cadeira alta, vermelha, estufada, confortavelmente estranha. Foi aí que tudo perdeu a graça e teve de voltar. Preferia o velho nó dos fios, a sola do pé de pele cascuda caminhando na grama. Que alegria as suas rugas lhe traziam!

Sunday, September 09, 2007

Oráculo


Todo mundo precisa se sentir pequeno para saber: é assim que os pensamentos pipocam. Descobre-se que o oráculo que tanto procuramos está ao nosso lado, seja ele qual for. O importante é quem tu és.

Aí, vemos que o vento, aquele rasteiro, conduz bem melhor os grãos de areia do que os gargalos das ampulhetas. Pra lá e pra cá, faz a gente esquecer da direção e se concentrar no norte. Quanto menores são, maiores podem ficar.

Nada melhor do que as palavras, a areia e o tempo para trazer as respostas.

Sunday, September 02, 2007

Sobras

A questão, agora, é saber como fazer para reaproveitar as coisas. Todos estão preocupados com isso, dos engenheiros aos padres.

Os engenheiros mecânicos têm a tarefa de descobrir como se reaproveita energia. Para fazer um carro andar, gastamos energia, a gasolina. Para fazê-lo parar, jogamos fora toda a energia que acumlamos ao acelerar, simplesmente pisando no freio. Ora, é preciso descobrir outro jeito de parar os veículos.

Ouvi um padre dizer que só deve casar quem está interessado em fazer o outro feliz. Quem casa para satisfazer a si, nem deve pensar nisso. No final, ele disse que se o noivo estivesse com vontade, até poderia dar um beijo na noiva. Ora, é preciso descobrir um outro jeito de parar.

Friday, August 31, 2007

Expointer

– Hã? Tu nunca foi? Sério?
– Não. Acho que não. Talvez uma vez quando era criança, só.
– Mas tu é daqui?
– Sim.
– De Porto Alegre?
– Sim.
– E nunca foi?
– Não.

Me senti um extraterrestre por alguns minutos. Mas o fato é que não tenho a mínima vontade de visitar o tal evento. Nem pelos animais, mas pelas pessoas. Aquilo é mais lotado do que shopping em dia de passe livre. Talvez, se prendessem as pessoas e deixassem os animais circulando, eu iria.

Sunday, August 26, 2007

Alegria

Salve o prazer, salve o prazer!

Saturday, August 18, 2007

Por trás do mito

Estes dias fui apresentado ao fantástico Narval, um cetáceo de grande porte que habita as águas congelantes do círculo polar ártico. A principal característica da raça é o dente de marfim que cresce enrolado em espiral até atingir 3 metros de comprimento – a metade do tamanho do animal.


Não demorou para os Vikings iniciarem a caça ao animal, quando montaram a colônia na Groelândia, durante a idade média. Assim, as peças circulavam por toda a Europa como prova da existência dos unicórnios. Acreditava-se que o chifre possuía poderes mágicos de cura.

A realidade provava que era muito mais fácil capturar um Narval do que um Unicórnio, já que os arpões são mais facilmente encontrados do que as ninfas puras. Leonardo da Vinci, que não era bobo, escreveu:

"O unicórnio, através da sua intemperança e incapacidade de se dominar, e devido ao deleite que as donzelas lhe proporcionam, esquece a sua ferocidade e selvajaria. Ele põe de parte a desconfiança, aproxima-se da donzela sentada e adormece no seu regaço. Assim os caçadores conseguem caçá-lo."

Sunday, August 12, 2007

Uma convicção completamente infundada

O mais fácil sempre é comprar uma opinião pronta, daquela que nasce, cresce e se desenvolve ao lado. Mas sempre achei muito mais atrativo e sincero ver minhas próprias dúvidas brotarem. Cultivá-las com a tranqüilidade de quem sabe que a maioria dos filmes têm final feliz.

Assim as minhas verdades amadurecem, nem sei bem como.

Tuesday, August 07, 2007

Ele ama a paz


"oi pesoal tudo na pas ? veja gente os jogos panamericanos custaram para nós contribuintes gue pagamos inpostos 2 bilhoes e 500 milhoes de reais enguanto a populaçao brasileira no tem moradia nao aceso a saude nao tem hospitais os colegios e escolas sucatiadas e 100 milhoes de brasileiros nao tem esgoto nao agua potável e energia eletrica e tanbem 60 milhoes de famintos com miséria absoluta sem contar os aposentados gue nao tem dinheiro nem para conprar remedios e veja bem o insano carrasco do lula tao covarde e banana nao foi capaz de abrir os jogos panamericanos e levou uma baita vaia foi bem merecido ele devia levar tanbem alguns ovos e tomates na cara para aprender a ser mais homem e nao ser tao covarde o brasil nao merece este mercenario fora lula deus nos livre destes malditos viva o brasil
tony da gatorra
"

Tony da Gatorra

Merenda


Lembro como o lanche era importante quando era criança. Tinha uma térmica do Sonic que adorava, costumava levar mil coisas, de todos os jeitos, até colher pra comer salada de fruta grudada no pote com durex. Os anos passaram e nos tempos de Famecos descobri o Mate Leão com pastelina, meu café da manhã de quase todos os dias.

Esses dias tava sentado num balcão de bar, jogando conversa fora com um amigo dos tempos de colégio. O papo passava bem longe disso, mas uma hora ele fixou o olhar e suas feições, que antes eram de um embriagado risonho qualquer, mudaram para uma fúria que nunca havia visto nele:

- Seu filho da puta! - pulou da cadeira, apontando com o indicador para um cara que tava perto da gente.
- Que isso, cara? Tá louco? - eu disse.
- Eu lembro desse cara. Ele roubou meu lanche na 3ª série!

Tive que ficar no meio, apartei a briga. Só conseguia ouvir o cara dizendo pra namorada "nunca vi esse cara na vida!". Diminuído o fogo da Tequila, fui conversar com o ladrão e o reconheci. Era ele mesmo! Deve ter roubado muitos lanches meus também, nunca vou esquecer.

Thursday, August 02, 2007

Rumo ao conhecido

"(...) E se lembrou com deleite de como ele ainda era forte, apesar de já passar dos sessenta anos, como era arrogante e otimista, e como era estranho que, estando convencido de toda sorte de horrores, não ficasse deprimido, mas alegre. Não era estranho isso?, refletiu. Na verdade, às vezes lhe parecia que era diferente das outras pessoas, que tinha nascido cego, surdo e mudo para as coisas comuns, mas com um olho de água para as extraordinárias. Sua compreensão freqüentemente a surpreendia. Mas será que ele notava as flores? Não. Será que notava a paisagem? Não. Será que notava mesmo a beleza de sua própria filha, ou lhe serviam pudim ou um assado no prato? Sentaria com eles à mesa como alguém durante um sonho. E o hábito de conversar ou recitar em voz alta crescia nele, e ela sentia medo; pois às vezes soava estranha:

Apareçam as melhores e mais brilhantes!"

Rumo ao Farol, de Virginia Woolf, tem o poder de transformar o comum em extraordinário, uma agradável leitura da leitura da personagem principal sobre as pequenas grandes coisas da vida. Grandes mesmo.

Sunday, July 29, 2007

Goya

Vi os risquinhos que formam desenhos do Goya, no Margs. Como crítico cultural, tenho pouco a dizer e muito o que me surpreender.

Não saiu da minha cabeça a imagem da cadeira sentada em um homem, pintada em 1810, a caricatura dos pavores e da persistente degradação humana. Ao lado de burros jogando cartas, frangos depenados com corpo de ave e cabeça de homem, cavalos montando pessoas; todas as figuras além-mundo-dos-sonhos, nada se compara ao homem embaixo da cadeira.

Tuesday, July 24, 2007

Medo


Eu prefiro acreditar que em O Labirinto do Fauno a realidade é mais fantástica do que o mundo das fadas. Nunca um filme captou tão bem o medo, como elemento abstrato e real, desenhado com a bela fotografia, maquiagem e efeitos especiais. O pior monstro é humano, a mais pura das criaturas também. O mundo dos sonhos de cada um é muito mais relevante do que a realidade coletiva.

Monday, July 23, 2007

Are you Well Envoweled?
How well envoweled is Marcos Chavarria?We checked 1,000,000 names and 29.7% had more vowels than 'Marcos Chavarria'. That means you are
well envoweled.
Check your envowelment, find your Power Animal, and see your name in binary at isthisyour.name

Saturday, July 21, 2007

Série escutas inevitáveis: O velho e o moço

O leve calor animava as pessoas, fazia aquele final de tarde parecer realmente importante dentro da semana absolutamente normal do mês.

O moço estava à frente na fila para o ônibus, usava uma mochila do Houston Rockets laranja, boné da Nike e aparelho nos dentes. A inquetação era visível, olhava para cá, para lá, se espichava para todo o lado. Depois de breves segundos, virou para trás e perguntou para o velho:

– Pode segurar o meu lugar? Quero comprar um refri ali.
– Não.
– Não?
– Não vou.

A sinceridade surpreendeu o moço, mas não havia razões para discussão.

Saturday, July 14, 2007

Mostremos valor

Quem me vê torcer o nariz para o gauchismo me olha com cara de comercial da Polar, "esse cara não é daqui". Eu sou. As muitas subjetividades da construção social de um Estado como o Rio Grande do Sul fazem com que a unidade forjada pelos formadores de opinião não passe de mera linha editorial, ou para usar uma expressão mais direta, estratégia comercial.

Até que ponto segmentar as pessoas é uni-las ao invés de afastá-las? Ao criar o herói gaúcho, usando como inspiração os personagens da literatura européia, deixando de lado o maltrapilho-errante-ladrão-de-gado, fomos todos impelidos a achar que somos mais do que o resto do Brasil, tão brasileiro perto do nosso sangue azul.

Max Weber bricou que nação é uma "comunidade de sentimento que tende a forjar um Estado". Agora que já temos todos muito em comum, podemos torcer pelos gaúchos do Pan. Não duvido que no quadro de medalhas a República Juliana consiga ficar à frente de Uruguai, Paraguai, Peru...

Friday, July 13, 2007

A nova descarga


As grandes inovações sanitaristas mudaram o cenário urbano no início do século passado. As pessoas já não precisavam mais ter casinhas nos fundos, cavar buracos, nem lavar os tonéis cheios até a boca de dejetos no pobre Guaíba. O ar deve ter ficado mais leve.

Mas desde que inventaram o método que usamos até hoje, nada mudou. Rios de água potável ainda se perdem todos os dias. O gesto quase instintivo de apertar o botão, ou puxar a cordinha, é mandar embora, para longe de si. Como faz o fumante ao arremessar o cigarro para longe – qual a diferença em deixá-lo cair, simplesmente?

Apensar de essa figura geométrica pertencer ao passado, a nova descarga funciona como uma engranagem, como um velho moinho d'água. Inovador, evitaria o desperdício e seria mais eficiente.

Monday, July 09, 2007

24 e 25/08/2007



"Sim" combina baladas, melodias óbvias com batidas desencontradas, guitarras pesadas com voz delicada. Longe de ser inovador, nada de "futuro da MPB", é só simples e bom. Destaque para os barulhos das músicas, como se fossem rastros da melodia principal. Algo não muito perceptível nas primeiras audições, porém fundamental na composição do álbum.

E se tu tá com "Banho de Chuva" na cabeça, esquece. Essa é Ana Julia dela. A dica é ver ao vivo, no Sesi.

Wednesday, July 04, 2007

Basta pensar, não precisa entender

Dar razão, pensar sobre um assunto é parar de entendê-lo. O filme é uma aula sobre humanismo. A resenha ideal seria um manual sobre como as pessoas funcionam. Megalomaníaco, não? Eu fico por aqui...

Thursday, June 28, 2007

O mexicano

Pegue um pão italiano, daqueles redondos, grande, do tamanho de um melão maduro. Retire o miolo. Recheie com chili, queijo, carne moída, calabresa e bacon. Pimenta ao gosto do cliente. A sugestão da casa é a malagueta "Ardência no Regaço" – juro que é esse o nome. Desista do seu dia seguinte, nem tendo sobrenome latino pra escapar ileso.

Mas fica a dica do Pueblo.

Wednesday, June 27, 2007

Vias

Nas vezes em que seguir em frente, com o fluxo, é o caminho mais fácil, tudo bem. No máximo virar pra um lado ou outro, com placas ajudando. Mas há um caso em que a decisão é inadiável: o cruzamento em forma de estrela.

Não vale a pena listar os exemplos pela cidade. Uma breve explicação, pelas vivências de cada um, revela casos, alternativas e ruas envolvidas. Na estrela, a clássica, de 5 pontas, é impossível seguir reto. Obrigatoriamente há uma escolha entre direita ou esquerda. E outra, entre curva fechada ou aberta.

Aí é que se dá um jeitinho para quebrar a monotonia do fluxo contínuo e fazer coçar a barba. Se ficar parado, vão começar a buzinar atrás...

Tuesday, June 26, 2007

O ninja da Borges

Todo dia de manhã, com eventuais exceções, é a mesma rotina. Ele finalmente acorda, põe fim ao encurta-puxa do seu cobertor de criança e pula da cama. Bota os dois pés no chão ao mesmo tempo. Um pouco de sorte e um pouco de azar, é o ideal, pensa.

Come qualquer coisa. Veste qualquer coisa.

Segue em passos curtos, medidos, até a praça Isabel Católica, aquela que separa a Borges da Praia de Belas e vai encurtando até finalmente ceder à pressão do asfalto e unir as vias. Deposita a toalha, as chaves e a pequena niqueleira ao lado de uma árvore. E começa.

Em posição de Copo-cheio, Copo-vazio – princípio básico das artes marciais que consiste em flexionar os joelhos, para aumentar o equilíbrio e aliviar a tensão das costas – começa a praticar as sequências de golpes. Soca com a direita o cara da frente, dá um cotovelaço no outro ao lado, vira, cerra os punhos, respira, e começa de novo.

Os movimentos são péssimos, mas a atração é garantida. O senhor de no mínimo 50 anos, cabelo-cachopa, levemente gordo, já virou ponto turístico da cidade. O repertório de movimentos é enorme. Sempre que passo por lá, vejo uma nova série de golpes.

Monday, June 25, 2007

Recato

É um novo baby boom provocado pela queda do dólar, tô ficando velho ou é pura coincidência. Ao todo, tenho 4 amigas grávidas, todas com vinte e bem poucos. E mesmo com os olhos arregalados dos amigos, as perguntas, elas estão achando o máximo. Deve ser mesmo.

Eu sempre fui um tipo de encantador de bebês. Isso que nem sou daquelas que fazem "guti-guti" e aumentam o tom da voz pra interagir com eles. Eu só olho, dou um tchauzinho, mexo as sobrancelhas alternadamente, encho as bochechas de ar e deu. O mais legal é que eles não tem vergonha de nada. Quem em sã consciência olharia fixamente por minutos para alguém, sem ser num Jogo do Sério?

É uma prova de pureza. Ainda não foram contaminados pela recato social humano. Podem ficar pelados, olhar pra quem quiser, por quanto tempo quiser e o motivo não importa. Não importa nem se há motivo. Só fazem o que querem fazer. Temos muito a aprender com eles.

Friday, June 22, 2007

Sindicalista Nego Marco

Se a Ufrgs adotar o sistema de cotas raciais, eu juro, vou me declarar negro e fazer um vestibular qualquer. Além disso, vou incentivar as pessoas para que façam o mesmo.

Eu queria ser sindicalista só para pensar em novas formas de protesto. Acho a greve um modo antigo e superado de reivindicar algo. Se a idéia é chamar a atenção da mídia para a classe, há diversas formas mais criativas e que não causam transtorno para o resto da população.

A Yoko, por exemplo, para protestar contra a temporada de caça às raposas na Inglaterra, fez churrasquinho de um cão da raça preferida da Rainha. Não que ela não goste dos cães, mas qual a diferença entre os dois animais? Os dois tem carne.

Polemizar é sempre mais fácil do que ser discreto.

Friday, June 15, 2007

O mundo vai acabar essa semana

Vi o documentário "Uma verdade inconveniente" do Al Gore no último sábado, já que a chuva me impediu de outro programa mais emocionante. O fato é que não poderia ter escolhido dia melhor, ou pior. O mundo desabando lá fora e a explicação daquilo tudo na tela, à minha frente.

Comprei umas revistas essa semana e mergulhei fundo no assunto do derretimento das geleiras. Entendi tecnicamente todo o processo que vai muito além do óbvio: se o gelo derreter, o mar vai subir. É um processo muito complexo, assim como toda a ecologia, feita de inter-relações, ligações, conexões e todos os termos desse tipo.

Temos um castelo de cartas à nossa frente e não paramos de assoprar. O fato é que eu nunca comprarei uma casa à beira-mar, esse é um conceito do passado. E já que tenho vinte-e-poucos, ainda me permito sonhar em fazer alguma coisa.

Wednesday, June 06, 2007

Batida

Algumas coisas ruins podem nos causar sensações boas. Foi assim que um amigo me descreveu, com detalhes, a emocionante experiência de sofrer um acidente de carro. Uma coisa horrível em todos os sentidos, ainda mais quando a velocidade é alta e a batida, lateral. Mas há um certo frio na barriga, como uma montanha-russa, uma inquietação, uma incerteza de um segundo que torna a experiência fantástica e única.

Hoje veio a surpresa. Sempre pensei nessa agitação como algo que somente é possível por uma fração de segundo, como um cagaço de filme de terror. O medo é irracional. Quando ele se torna racional, calculado, ou se pula fora antes ou se encara com a certeza da vitória.

Azar dos marinheiros, nunca tinha pensado neles. Na água tudo é mais lento e barco não tem freio-de-mão. Vi uma correria no navio, daqueles cargueiros. Vi a âncora sendo solta e fazendo um estrondo enorme enquanto descia ao fundo do Guaíba e raspava no casco da embarcação.

Ao mesmo tempo, viraram o leme e o enorme monstro de metal foi parando e virou de lado, perpendicularmente ao outro. Deve ter sido a melhor montanha-russa que aqueles homens já andaram...

Thursday, May 24, 2007

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